O
ENGANO DA ESPIRITUALIDADE PÓS-MODERNA
“Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. Eles
não são do mundo, como eu também não sou. Santifica-os na verdade; a tua
palavra é a verdade”. Jo 17:15-17
A nossa
tendência aos extremos é perturbante. Algumas décadas atrás, os cristãos
evangélicos açoitados pelo legalismo tupiniquim e pelos modismos teológicos
enlatados, importados principalmente dos Estados Unidos, tendiam a se tornar
uma comunidade de “xiitas” cristãos, radicais quanto a toda leitura dogmática e
prática religiosa. Fruto dessa tendência em que tudo era considerado pecado,
nosso povo se “exilava” numa espécie de “mundinho pré-celestial”.
Os anos
passaram, e com eles a tendência “xiita cristã” se desvaneceu. A
pós-modernidade venceu a luta contra o radicalismo fundamentalista dos
evangélicos, e os lançou numa outra tendência exatamente e diametralmente
oposta a anterior. Se antes se buscava criar um mundo próprio que nos afastaria
daquele que nos cercava, agora não só penetramos nos “arraiais estranhos” como
cada vez mais nele vivemos e dele nos sentimos parte integrante.
O que
vemos hoje nos rincões cristãos é o sobejar do pensamento liberal, que apregoa
uma releitura bíblica centrada em matizes humanistas. E o que sobra da leitura
bíblica após essa “peneirada” liberal humanista? Um livro como outro qualquer,
cheio de histórias que não querem dizer o que aparentemente dizem.
Nossa
prática religiosa, calcada de um pragmatismo aviltante, busca resultados
imediatos no ínterim de comprovar nosso discurso. Assim, é “possuidor” de Deus quem
dele consegue extrair os fins que se deseja.
Com
nossa leitura bíblica esvaziada, e com nossa prática equivocada, resta-nos cada
vez mais um universo crescente de cristãos nominais, que à medida que se tornam
espiritualistas, deixam de ser espirituais.
As
igrejas estão cheias de frequentadores de cultos dominicais. Insistem em está
lá pelo receio de não quebrar a “corrente”, ou algo similar, e assim, incorrer
no risco de perder a “bênção”. São cristãos consumistas que não se preocupam em
ler a bula, o manual de instrução, às informações do rótulo. E como dizem os
nutricionistas, somos basicamente aquilo que consumimos; então, poucos se importam
com sua identidade religiosa, aliás, da mesma forma que o termo moral tornou-se
pecha, ser religioso veio a ser reprovável. Pura hipocrisia. Com todas as
mazelas e perversidades praticadas pela humanidade, lutaremos agora por deixar
de ser humanos?
Se os
cristãos continuarem a dar ouvidos as vozes dos “gurus” ou “mantras” que vivem
repetindo discursos que tornam-se atraentes porque estão sintonizados com a Era
atual, uma época que rejeita as “velhas verdades”, que apregoa a falsa
liberdade e o amor sem critérios, deixaremos de ser cristãos. E se nos
omitirmos diante do crescimento de uma fé utilitarista, apregoada por
mercenários profissionais do púlpito, acabaremos por nos tornar anticristãos.
Diante
da pulverização da fé, ou em sua absoluta negação, nós cristãos evangélicos precisamos
crer profundamente nas eternas verdades bíblicas, e isso tendo conhecimento de
causa. É imprescindível adquirir o conhecimento da fé que se professa,
esmiuçá-la, compreender suas implicações... comer o Livro (Ez 3.3; Ap 10.10), voltar-se
para a bússola, para o único manual viável ao que deseja ser cristão.
Precisamos viver as eternas verdades bíblicas, e isso com tamanho empenho e reverência,
que não haja distancia entre aquilo que é dito, e o todo do que é praticado.
Assim, o
caminho que temos trilhado deve sim ser revisto, não para buscarmos um atalho
que aparentemente seja mais conveniente ao nosso tempo, nem para trocarmos de
locomotiva, por parecer que a que ocupamos “envelheceu” e não oferece rapidez e
segurança. Devemos analisar nosso caminho em busca de fazer nele a devida
manutenção, retirando de sobre os trilhos os empecilhos que porventura possam
causar “acidentes”. E quanto a locomotiva, joguem-se fora os pesos
desnecessários, ponha-se novo combustível, e a “velha máquina” mostrar-se-á
confiável.
Permaneço
no vagão. Recebi minha passagem do condutor, e ele me garantiu que chegarei por
este trilho e nesta locomotiva ao destino final, e esse não é, com certeza, na
estação desta religiosidade pós-moderna.
“Posso não ter
carisma... mas não posso não ter caráter”
Pr. Robério Alexandre

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