A sociedade atual sofre rápidas transformações de valores. Conceitos outrora cultivados como pilares da humanidade desabam dia-após-dia, e no seu lugar surgem novas ideologias. Este novo modus vivendi da sociedade moderna se fundamenta no secularismo – termo que segundo o professor de teologia e ética da Universidade Carey Hall em Vancouver, Canadá, Stanley J. Grenz significa: “O sistema de crenças que nega a realidade de Deus, da religião e da ordem sobrenatural, sustentando assim que a realidade se compõe apenas deste mundo”. Quanto a esta questão, John Sittema acrescentar quando observa que a humanidade torna-se essencialmente secularizada à medida que concebe o imediatismo, o aqui e agora desta vida, em contraste com o que é eterno (SITTEMA, 2004, pp.61-81). Essa secularização atrela-se a alguns conceitos bem presentes na pós-modernidade, dentre os quais: o materialismo, que impulsiona o homem atual a colocar seu coração nas coisas palpáveis, na paixão pela gratificação instantânea, na satisfação imediata, na busca por satisfazer os sentidos, no acúmulo de riquezas; o relativismo, que rejeitando fundamentos e princípios universais, torna o homem contemporâneo avesso a absolutos, vivendo uma espécie de fragmentação dos compromissos; e, por fim, o pragmatismo, pois este escolhe sua forma de agir conforme suas ações redundem em prazer ou dor, sucesso ou insucesso, e através deste processo, define-se o que é certo e o que é errado.
Todos os homens inseridos no meio, em alguma medida, sofrem as influências do ambiente. A igreja é formada por pessoas, logo, fica claro que ela está exposta as pressões secularizantes que se lhe apresentam; e na falta de definição própria ou ausência de um padrão teológico e moral que lhe sirva de referencial, essa má influência implanta-se e se estabelece na igreja. Assim observa o Rev. Hernandes Dias Lopes: “Estamos expostos a toda sorte de influências destrutivas, porque os nossos referenciais estão fracassando. A crise avassaladora que atinge a sociedade, também alcança a igreja. [...] Muitos pastores, no afã de buscar o crescimento de suas igrejas, abandonam o genuíno evangelho e se rendem ao pragmatismo prevalecente da cultura pós-moderna (LOPES, 2003, p.8).
E não há nada mais difícil em nossos dias do que delinear o que é certo ou errado. O pensar atual, construído sobre princípios relativistas, torna moda desfazer-se de todo e qualquer paradigma estabelecido. Sob a tutela da pós-modernidade, o pragmatismo e a relativização se arvoram do pseudo direito de questionar toda a Verdade, substituindo-a precipitadamente por inúmeras “aproximações” da Verdade. Mas, como a pós-modernidade é contrária a conceitos fixos, quais os critérios adotados para minar as “verdades absolutas”? Se estes critérios existem, como confiar neles hoje, se sendo transitórios, amanhã poderão não possuir o mesmo valor? Bem, ouso dizer que pelo menos um dos pilares conceituais da “inquisição relativizadora”, permanece o mesmo em todo o período da “Jihad” contra a Verdade, é a demonização do que é antigo. Estranhamente em nossos dias, especificamente neste lado ocidental do mundo, tudo aquilo que tem o cheiro de antigo tornou-se inapropriado, inadequado mesmo. A Bíblia, por exemplo, um dos escritos mais antigos do mundo, vem perdendo espaço como norteador da vida. Há, nos dias atuais, uma verdadeira repugnação pela interpretação bíblica clássica, de forma que, tudo que séculos de labuta intelectual produziu, deve ser no mínimo repensado. É por isso que, segundo Lyotard (2002, apud MORI, 2005, p. 7), muitos pensadores atuais, na tentativa de definir ou significar o fenômeno da pós-modernidade, o fazem concebendo o fim das “grandes narrativas”, a exemplo da soteriologia cristã. Para estes, a pós-modernidade veio acompanhada do fenecimento das igrejas cristãs como instituições portadoras e organizadoras do religioso. Este, entretanto, não é o fim último da celebrada “liberdade dogmática” filha da pós-modernidade, que em sua trajetória de reconcepção da realidade conceitual, tem “enfraquecido” a compreensão acerca de Deus. E ainda, mas que questionar a existência deste Deus, a pós-modernidade lança dúvidas quanto aos seus atributos. Na mentalidade atual, as tragédias humanas, especialmente aquelas vivenciadas no século passado (Auschwitz, Camboja, Ruanda, Bósnia, etc.) produzem indagações a partir da inoperância de um Deus soberano, amoroso e justo, e que, no entanto, nada fez para impedir tamanha dor e sofrimento. Esse estado de coisas, segundo os pós-modernos, sugere o fim do “deus” concebido pela teologia tradicional judaico-cristã. Desde então, inicialmente com os pensadores judeus, e adiante assimilado pelos autores cristãos, o conceito da divindade torna-se compreensível mediante sua não-onipotência. A idéia de um Deus que não interfere no meio de tanta maldade somente é concebível se ele abdicou de seu poder, ao conceber ao homem existência e liberdade. Essa não-onipotência divina é condição de possibilidade da liberdade humana no mundo. Deus, dizem os autores judeus, foi derrotado pelo drama da sua própria criação. Depois de Auschwitz, uma divindade onipotente ou é privada de bondade, ou é totalmente incompreensível. Vê-se, portanto, que mesmo a idéia de Deus corre sério risco, e em especial, o Deus pessoal revelado na Bíblia.
A problemática da existência de um Deus conforme Aquele até então entendido pela maioria dos cristãos, passa a ser mais dramática à medida que os próprios pensadores do cristianismo se empenham em repintá-lo, e desta feita, com as tintas da pós-modernidade. Segundo Mori, pensadores da envergadura de Jϋngel, Moltman, Sobrino, interpretam Deus pelo víeis do sofrimento humano, o que resulta no pensar o absoluto a partir da contingência. É o problema do mal solapando a fé no Deus soberano. A resposta pós-moderna ao problema do mal consiste em reinterpretar Deus. Para tanto, faz-se necessário desconstruir o molde da divindade concebida pela teologia clássica ao longo da história cristã, pois acredita-se que este Deus está posto a partir de elementos da filosofia grega (o Ser primeiro, imutável) levando-o a ser inteiramente diferente do Deus revelado em Jesus Cristo. Entretanto, Mori alerta que na verdade, o que a pós-modernidade tem conseguido com seu enfraquecimento da concepção de Deus é revelar um Deus fraco e impessoal, ou seja, nenhum Deus é então o único Deus, nenhuma religião é a única religião, nenhum salvador é o único salvador. Como conseqüências desta nova interpretação do divino, toda “fé” passa por transformações, e como é próprio da mentalidade pós-moderna, toda verdade dogmática e universalmente vinculadora é rejeitada e substituída por indicações morais “débeis”, problemáticas, parciais e provisórias, num processo em que, paulatinamente, a religião e a fé no divino é substituída pela moral e a ética do humano. Assim, as igrejas cristãs passam a ser mais reconhecidas pelos seus posicionamentos éticos do que por suas afirmações doutrinárias. Segundo Stanley Grenz (1997, p. 238), os pensadores pós-modernos abandonaram a busca pela verdade universal e final porque estão convencidos de que não há nada mais a descobrir exceto uma miríade de interpretações conflitantes ou uma infinidade de mundos criados pela linguagem. O abandono da crença na verdade universal implica a perda de todo critério final, graças ao qual podem-se avaliar as várias interpretações da realidade que se entrechocam na esfera intelectual contemporânea. Nesse caso, todas as interpretações humanas – inclusive a cosmovisão cristã – são igualmente válidas porque são igualmente inválidas. Não é de se estranhar, portanto, que nos corredores eclesiásticos de algumas denominações, os Credos, as Teologias Sistemáticas, as Confissões, e pasmem, a própria Bíblia, são postas na lata de lixo, e em seu lugar, nas salas de aulas das escolas dominicais ou nos púlpitos, ocupam espaço os livros de autores que embevecidos de conceitos pós-modernos, defendem uma teologia que não privilegia a lógica conceitual, e não possuem em si nenhuma característica de objetividade. Para estes, Deus deve ser pensado fora da questão do ser. O único nome e o único conceito que podem ainda ajudar-nos a pensar Deus é o amor. Perde-se aqui, portanto, a possibilidade de encontrar-se um Deus absoluto, pessoal, mais completo, Pai de Jesus e único Salvador; tão pouco o lugar de encontrar-se com ele é a religião institucional ou a comunidade eclesiástica, mas sim o sentimento privado, a emoção pessoal, a intuição individual, pois estando livres dos conceitos dogmáticos e das paredes institucionais, favorece-se a aceitação da renuncia à necessidade incondicional de salvação e o eventual socorro da graça sobrenatural, contentando-se o indivíduo com uma salvação intramundana, na aceitação da naturalidade do finito, na busca por captar no aqui e agora, no instante, a alegria e a beleza. Fica claro ainda, como conseqüência do enfraquecimento da concepção de Deus, que nos dias atuais ocorre uma substituição da transcendência divina pela transcendência humana, ou seja, como no humanismo clássico, o divino é humanizado ao passo que ocorre uma divinização do humano. Facilmente se constata tal processo no culto ao corpo, na sacralização da cultura, na substituição da Palavra revelada pela interioridade existencial, no engajamento humanitário impulsionado a priori pela crença que todo ser humano como sagrado, deve ser salvaguardado pela ação política e cultural. Nesta esteira, ocorre até a secularização do diabo mesmo pela própria Igreja, quando substituiu a expressão “livrai-nos do Maligno”, do Pai Nosso, pela expressão “livrai-nos do mal”. Mas, ainda a própria concepção do humano sofre uma espécie de enfraquecimento na mentalidade pós-moderna, visto que a antropologia clássica que concebia o homem como sendo a “imagem e semelhança” de Deus, vem sofrendo inúmeros ataques: Se Deus, na pós-modernidade, deixou de ser pessoa, o homem, originalmente sua criatura, recai a condição de filho da humanidade, ou seja, objeto da própria identidade e realidade que o cerca. Deus seria um ser difuso no universo, e o homem como parte integrante do universo, é, portanto, parte do próprio Deus. Tal proposta busca, deste modo, despersonalizar tanto a divindade quanto a humanidade. Outra característica pós-moderna é invalidar as esperanças escatológicas. No mundo pós-moderno, a confiança no progresso do mundo ou em sua transformação (Iluminismo/Modernismo) cede espaço a uma suspeita desanimadora. Segundo Stanley (p. 24), o pós-modernismo substitui o otimismo do ultimo século por um pessimismo corrosivo. É por isso que os autores deste tempo rejeitam o que chamam de utopias, visto que em sua concepção, o futuro é finito, e o imprescindível é viver o instante. Com a morte da escatologia utópica, e o desprezo pelos seus fundamentos dogmáticos, valida-se a compreensão de que importante é a experiência e a expressão, que encontra na arte, na cultura, no fazer humano, sua plena realização. A religião que se arvora em acontecimentos futuros, em especial a cristã, fundamentada no advento escatológico de “um novo céu e uma nova terra”, não é negada nem rejeitada, mas assimilada como um jogo lingüístico pluralista e disseminado. A religião passa a ser genérica, imprecisa, que satisfaz a cada um aqui e agora, e não implica a adesão a um determinado corpo de doutrinas ou preceitos.
Nem tudo está perdido... ou muito menos, nem tudo que outrora foi dito, deve ser desdito. Segundo Mori (2005, p. 26 e 27), o “desencantamento do mundo”, do qual falam tantos sociólogos da religião, não aconteceu inteiramente entre nós brasileiros. Por isso é preciso que estejamos atentos e não pensemos um discurso sobre Deus somente baseado nas questões levantadas pelo pensamento pós-moderno. Quanto a este estado de coisas, o apóstolo Paulo já nos alertava: ´´Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema.`` (Gálatas 1.6,8); e ainda, "Para que não mais sejamos meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pela fraudulência dos homens, pela astúcia tendente à maquinação do erro; antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo nAquele que é a cabeça, Cristo." (Efésios 4.14-15). Foi com base nesta aceitação irrestrita do pensar pós-moderno que Stanley Grenz (1997, p. 238) lembrou-nos que nosso compromisso para com o Deus revelado em Cristo obriga-nos a resistir ao ceticismo pós-moderno, especialmente quanto a perca de um “centro” para toda a realidade constituída. Diz ele que os verdadeiros cristãos reconhecem em Jesus de Nazaré, a Palavra eterna, a manifestação deste centro. E esse Jesus está revelado numa épica narrativa – a Bíblia, a qual consideramos ser a metanarrativa que abarca todos os povos de todas as épocas, pois é a história da ação de Deus na história para salvação da humanidade decaída e a finalização das intenções de Deus com relação à criação. Grens (1997, p. 239) ainda afirma que, em última análise, a metanarrativa que proclamamos ultrapassa os limites da razão a ser descoberta ou avaliada. Portanto, concordamos que, neste mundo, testemunharemos a luta entre as narrativas conflitantes e as interpretações da realidade. Devemos, porém, acrescentar que, embora todas as interpretações sejam, de certo modo inválidas, não são inválidas todas elas igualmente. Resumindo, não podemos simplesmente permitir que o cristianismo seja relegado ao status de mais uma fé entre outras. Cremos não somente que a narrativa bíblica faz sentido para nós, como é a mensagem de boas-novas para todos. Ela incorpora a verdade – a verdade de toda a humanidade e para toda a humanidade.
Fontes:
GRENZ, Stanley J. Pós-modernismo: um guia para entender a filosofia do nosso tempo. Trad. Antivan Guimarães Mendes. São Paulo: Vida Nova, 1997.
LOPES, Hernandes Dias. “Piedade e paixão: a vida do ministro é a vida do seu ministério”. 2ª ed. São Paulo: Editora Candeia, 2003.
MORI, Geraldo Luiz. A teologia em situação de pós-modernidade. Cadernos Teologia Pública Ano 2 – Nº 11, São Leopoldo: Instituto Humanitas Unisinos, 2005.
SITTEMA, John. “Coração de pastor: resgatando a responsabilidade pastoral do presbítero”. Tradução Suzana Klassen. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

Nenhum comentário:
Postar um comentário