Meu coração hoje ficou irrequieto quando li as reverberações de um artigo postado no site de um renomado pastor, no qual o mesmo declara está deixando o movimento evangélico. Minha preocupação repousa no fato de que, a semelhança do subentendido pastor, tantos outros alardeiam a mesma decisão como que tendo encontrado a solução para resolver o estado de coisas que hoje pintam com cores desbotadas o meio evangélico.
É claro que, qualquer cristão com um pouco mais de senso crítico, será capaz de detectar as abundantes mutações doutrinárias que permeiam o vasto rosário de denominações evangélicas; também não é difícil se enxergar aberrações na moderna maneira de viver do evangélico, que, salvo raras exceções, pouco se compromete com a ética do Nazareno. A grande questão é: SAIR DO QUÊ E PARA ONDE?
Alguns estudiosos afirmam que a História é cíclica. Nada ocorre realmente de novo, mas tudo se reinventa ou se reinterpreta. Sendo assim, o inconformismo com as práticas de líderes cristãos, que acaba se expandindo para o repúdio a instituição ou segmento religioso não é a “invenção da roda”. Desde os primórdios do cristianismo assim o foi. Para não ser cansativo, lembremos apenas alguns homens ou grupos que não se conformaram com a decadência espiritual e moral de sua época, e romperam com a religião oficial: Os Paulicianos, os Novacianos, os Valdenses, Albigenses, John Huss, John Wycliffe , Martinho Lutero, John Wesley, e tantos outros. A grande verdade é que, se estes homens ou grupos se insurgiram contra os erros doutrinários e/ou éticos da religiosidade de seu tempo, conseguiram apenas um breve sucesso no seu intento. Passadas gerações, verificou-se nos novos arraiais que repetiam-se as mazelas outrora argüidas. Muitos no passado, no afã de corrigir aquilo que lhes perturbava, cometeram outros erros tão ou mais graves que aqueles que combatiam. Outros, na verdade, inicialmente não intentavam um rompimento drástico, mais acabaram sendo conduzidos a tanto pelas circunstancias adversas que fugiram ao seu controle. Após longos anos, se estes pudessem vislumbrar os rumos que tomara suas causas, iriam morrer pela segunda vez de vergonha e frustração.
Por que seria diferente nos dias nossos? São melhores os homens de hoje do que aqueles que antigamente se insurgiram? Estão mais comprometidos com a verdade? São eticamente mais cristãos do que o eram aqueles? Penso que não. Quanto àqueles que ajuízam romper com o movimento evangélico atual, acredito mesmo que até seja possível as boas intenções iniciais, mas não compro mais a idéia dos heróis nem dos anti-heróis. Também estive nos dois lados da moeda, e cá entre nós, existem sim outros interesses além do puro inconformismo politicamente correto. Se o evangelicalismo moderno encontra-se enfermo doutrinaria e moralmente, se o modelo institucional merece ser tão severamente combatido, por que ainda se mantém vínculos com estes modelos? Soa dissonante o discurso que apregoa e vocifera contra o movimento evangélico, a teologia da prosperidade e os magnatas teleevangelistas, e, no entanto, não se abre mão de aparecer na maior rede de televisão tratando de temas do movimento evangélico pentecostal como se o representasse.
Há ainda outras questões a serem levantadas. Segundo o último Censo do IBGE, o número dos cristãos que não mantém vínculo com igrejas saltou de 4% em 2003 para 14% em 2009. Essa taxa continua crescente, e mantida as tendências, em breve as igrejas estarão vazias (talvez seja isso que alguns líderes cristãos realmente desejam, aliás, um destes insinuou em artigo que o cumprimento do objetivo do movimento cristão cumpre-se na Europa com igrejas vazias...). Pergunte-se então, para onde irão estes desigrejados que já somam, por baixo, 4 milhões de crentes sem vinculo com a igreja evangélica, e que, certamente, anseiam por um “salvador da pátria”? Dificilmente voltarão para os bancos evangélicos, mas certamente correrão para um novo movimento que insinue nada ter haver com o “velho” evangelicalismo.
Desta forma, é prudente avaliar cuidadosamente essa nova tentativa de reforma da Igreja, ou na verdade, de abandono dela. São inúmeros os fatores que proporcionam o crescente desinteresse e compromisso com a igreja e suas lideranças. Boa parte destes motivos são realmente genuínos em sua essência (e merecem ser duramente combatidos), outros, entretanto, são compilados e defendidos por uma mente moderna ansiosa por romper com paradigmas, determinada a assumir ela mesma o controle da história, firme em não se submeter as leis externas. Entretanto, analisando a história da Igreja, e conforme o conselho de Paulo que em Hebreus 10:25 diz: “Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros...” me encho de cautela neste momento de indignação atual. Padeço com preocupações, sofro com os desmandos de nossas lideranças, aliás, sou vítima delas; inclusive, foram estas dores que me motivaram a escrever meu TCC – Trabalho de Conclusão de Curso, sob o tema: O Ministério Pastoral segundo a Ética Paulina nas Cartas Pastorais. Ali, pude fazer um estudo mais aprofundado sobre as exigências éticas inerentes ao Ministério Cristão e, no confronto com o que se ver hoje, espantou-me o abismo entre o que a Bíblia exige e o que se pratica na moderna concepção pastoral. Minha reação a tudo isso, no entanto, não foi de repudiar o chamado que lá atrás já mostrou-se verdadeiro em mim, mas esforçar-me ainda mais por ser um pastor segundo o padrão bíblico. Assim sendo, sair do movimento evangélico não deve ser uma fuga da luta por revitalizá-lo; nem muito menos uma tentativa de criar um novo sistema que acomode melhor aquilo que penso ser a maneira de viver e de crer. Sair do movimento evangélico só seria viável se nele não houvesse segmentos comprometidos com a verdade, com a lealdade, com a honra, com a ética, com a Bíblia, e acima de tudo, com o Deus da Bíblia. Penso sinceramente, que felizmente, ainda existe um remanescente fiel determinado a não se contaminar com as iguarias do “rei”, que não se curva diante da grande “estátua”, que não se acovarda da peleja, que não busca tão somente o pão que perece. Sinto-me assim, desafiado a permanecer onde estou, e lutar com todas as minhas forças para mostrar que ainda existem profetas nesta nação.

Robério, li texto e percebi sua inquietação diante de suas percepções quanto ao movimento evangélico e as devidas mutações, bem como as conseqüências contra e a favor.
ResponderExcluirQuero deixar minha contribuição mesmo sabendo que não conseguiremos ser conclusivos. Achei interessante você lembrar os grandes ícones da história e missões avivalistas. De tudo eu agradeço a Deus pelo inconformismo desses e de tantos homens de nosso tempo que lutam pela re-leitura bíblica diante dos tidos distúrbios doutrinários, mesmo correndo o risco de ser mais um que acaba querendo dizer que está com a verdade, se é que esta exista objetivamente e no corpo complexo chamado igreja.
Se hoje temos uma gama de pensadores que se inquietam tanto quanto aqueles avivalistas deve ser porque aqueles, ao moto próprio também deixaram de compactuar com o sistema de uso da bíblia e ainda dizendo ser Palavra de Deus. Deixando de compactuar enquanto tentavam re-ler a bíblia estavam também, assim como os pensadores de hoje, deixando de ser “evangélico”, para tentar voltar a atender às expectativas do Evangelho de Jesus. O que não significa “deixar a congregação,como é costume de alguns”, mas a tentativa de aproximar a vivência aos parâmetros de Jesus. É questão fenomenológica existencialista e não dissidência sectária. E o caminho é de aventura na confiança de que acabaremos dando certo e sendo recebido como servos fiéis. Realmente essa luta deve ser constante e sempre revigoradora em nosso meio eclesiástico para que experimentemos a doce voz do Espírito que continua nos chamando atenção.
Um abraço,
Josué Oliveira
Josué meu caro... feliz pelo rompimento do "silêncio".
ExcluirSomo-me a todos aqueles homens citados e aos atuais que não comungariam nem aderem a esse evangelho comercial, tirano, e obcecado por um triunfalismo alienador. Este, sem dúvida, é ponto comum entre nós. Entretanto, questiono a iniciativa de transferir para o termo "evangélico" os malefícios da conduta imoral e obscena de uma grande parte, é verdade,dos atuais líderes cristãos. Portanto, segundo meu diminuto juízo, a questão está mal resolvida justamente por ser ela , da forma como está sendo tratada, fenomenológica existencialista, e essa não é a única implicação, nem mesmo a maior. Josué, para quem tanto lutou contra rótulos, desfazer-se justamente daquele que é mais identificador em nosso imaginário religioso coo sendo tal atitude o "ás" da questão é no mínimo, contradizente. Pensemos que, a grande maioria daqueles que se depararem com anúncios - de quem quer que seja, inclusive de nós, de uma saída do meio evangélico, entenderão isso como uma espécie de "desvio" da fé cristã. Como evangélico que sou, não aceito a generalização deste padrão agora imposto, e teimo em dizer que restam em nossas fileiras, homens dos quais o mundo não é digno.
Abraço fraterno, meu irmão.